O primeiro painel de discussão entre especialistas na Edição de Inverno da Feira Viva levantou questões sobre a necessidade de se proteger o mar e os seus insumos

Você conhece os peixes da sua região? Sabe quais estão ameaçados de extinção? Quando vai à feira, ao mercado ou ao restaurante, você pergunta sobre a procedência do peixe que vai comer? E se o peixe estiver em extinção, você compra mesmo assim?

Se respondeu não a uma ou mais perguntas, você faz parte da maioria de consumidores que ainda não tem ideia do quanto a pesca predatória é prejudicial para todo o ciclo do peixe – do pescador ao consumidor.

O peixe e o palmito foram tema de um painel conduzido por Patrick Assumpção durante a Feira Viva com a participação dos chefs André Mifano e Eudes de Assis.

Os dois chefs acreditam que a mudança de hábitos é o caminho. Um bom jeito de começar é justamente fazendo as perguntinhas aí em cima. E pressionando os comércios e os próprios pescadores a fornecerem apenas peixes pescados de forma sustentável e legal. Como faz o chef Eudes de Assis:

“A quantidade de peixes em nosso litoral hoje é muito menor do que há alguns anos, tudo por conta da pesca feita de forma irracional. No Taioba, os peixes servidos são pescados em cerco: é feito um grande círculo no mar, eles são pegos vivos e os ameaçados de extinção são imediatamente devolvidos ao mar. Esta é a chamada pesca consciente”.

Polvo Brasileiro a preço estrangeiro

Se a gente não sabe o que acontece parece que o problema não existe. Mas existe e é bem sério. Veja o caso do polvo, por exemplo, história contada por André Mifano:

“Aqui no Brasil, se você quiser comer polvo vai pagar muito caro porque a maioria do polvo que se vende e se serve é importado. Mas o que quase ninguém sabe é que esse polvo que você paga uma fortuna porque veio da Espanha ou de Portugal, na verdade foi pescado aqui na costa brasileira, processado no próprio barco, congelado e enviado dali diretamente para o Porto de Santos, onde embarca para a Europa para voltar ao Brasil pelo triplo do preço”.

No território Terra Preta de Índio, André serviu uma tainha no vapor com farofa de banana, prato que fez muito sucesso e criou filas no evento. Esta que escreve ficou uns 20 minutos esperando para provar o prato e valeu a pena cada minuto.

“As pessoas querem robalo, mas o robalo está rareando. Aí tem a tainha, um peixe superabundante na nossa costa e saborosíssimo, mas ninguém experimenta. Por quê? Porque se acostumaram. Precisa mudar isso. Por isso trouxemos a tainha, para tentar mudar um pouco esse pensamento, afirma o chef André Mifano.

Com manejo certo, não vai faltar palmito

O caso do palmito é tão emblemático quanto o do peixe. A extração excessiva ao longo do tempo levou a palmeira da espécie Jussara à ameaça de extinção. Como alternativa, hoje a palmeira Pupunha é mais utilizada comercialmente. Mas o chef Eudes – que fez pratos com os dois tipos de palmito – conta que o problema está na falta de conscientização.

“O que temos de fazer é educar as pessoas, é fazer cada um – o pescador, o agricultor, o comerciante, a indústria, o consumidor – entender o seu papel nesse processo. Se o alimento acabar prejudica a todos. Não adianta dizer: não pesque esse peixe, não corte essa palmeira. Precisa educar e dar condições. O palmito Jussara que estamos servindo na Feira Viva, por exemplo, é de manejo de uma comunidade indígena da Aldeia de Boraceia, no litoral norte. Eles aprenderam a plantar e a cortar no tempo certo, do jeito certo. E ganham com isso”.

Todo mundo ganha, na verdade. Se cada um fizer o seu papel, nem a pesca nem a extração predatórias serão problema para as próximas gerações. Mas temos de começar já. Que tal levar as questões acima quando for ao mercado?

Assista a entrevista com André Mifano


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