Uma frutinha cor de laranja, parecendo um mamão pequeno. Esse é o fruto do jaracatiá, que fez sucesso na feitura de doce no tacho com a Bel Coelho e Eduardo Modesto na Feira Viva de Verão, no Parque Villa-Lobos, em fevereiro. Ela chef, ele produtor, ambos unidos pela paixão por uma árvore que é uma representante nata do nosso Brasil. O jaracatiá está na nossa história desde antes da colonização. Há relatos de uso pelos indígenas, pelos colonizadores e por agricultores de Norte a Sul do país. Da feitura do doce no tacho na infância do produtor Edu modesto até o resgate dessa tradição e a sua divulgação na Feira Viva, o jaracatiá tem muito a dizer.

E disse, nessa entrevista com a chef Bel Coelho e Edu Modesto. Confira:

Feira Viva- Edu, você que começou esse resgate da tradição muito forte que foi perdida. Conte um pouco como se interessou por trazer de volta o jaracatiá?

Edu Modesto – Se eu contar mil vezes, me emociono mil vezes. Minha tia, segunda mãe, mandava na infância eu limpar o jaracatiá para fazer doce. Isso estava muito forte na minha mente quando começamos a ir aos sítios antigos. Vimos que a raiz cultural era muito forte, mas ficou esquecida, aí quando começamos a soprar essa brasa, relembrar as pessoas, isso veio com uma força muito grande. O que se jogava fora, hoje virou renda para os pequenos produtores e tem se plantado muito na Serra de São Pedro e vem se tornando uma viabilidade econômica com a compota da fruta, geleia, sorvete. Hoje, a oportunidade que a Feira Viva nos dá, de estar aqui com a Bel Coelho e divulgar, me emociona mais. Muita alegria e muita felicidade. Aqui em São Paulo, se você falar para 100 pessoas, se duas ou três conhecerem o jaracatiá, é muito.

FV – Bel, conta como foi que você conheceu o jaracatiá.

Bel Coelho – Meu primeiro contato foi tomando uma cachaça de jaracatiá no sítio do meu sogro, em São Bento do Sapucaí, há 4 anos. Eu adorei e aí fiquei curiosa. Me contaram que, além da cachaça, se fazia doce do fruto e também do tronco. Fui atrás disso, consegui o frito em natura e comecei a fazer doces com ela, experimentos, e me apaixonei pela fruta. Comecei a fazer geleias e, quando servia, as pessoas adoravam e diziam não conhecer. É uma fruta do nosso bioma, Mata Atlântica, se você plantar em casa vai dar. As pessoas nunca provaram.

FV – Depois que você apresenta, as pessoas voltam para provar?

Bel – Como consumidor, precisamos correr mais atrás, para estimular o produtor, que beneficia o produto e faz subprodutos, gerando demanda. Como cozinheira, fiz questão de divulgar, no menu no Instagram. Sou apenas porta-voz, o grande artista é ele, são os produtores, estão fazendo trabalho ambiental importante, a gente não sabe o tamanho, de resgate ambiental e cultural. São produtos bons para a saúde.

Edu – Falando em resgate ambiental, você também passa a reflorestar quando planta um pé de jaracatiá, que é uma árvore pioneira, de crescimento rápido em beira de rio. O plantio e a confecção das compotas dependem da gente. Os produtores, que antes passavam o trator por cima, agora estão plantando. Se não houver a viabilização econômica, não acontece.

FV – O que falta para o consumidor de São Paulo poder comprar?

Edu – Mais fruta. Ela só frutifica de janeiro a março, o ápice é fevereiro. Precisamos de mais produtores interessados em plantar o jaracatiá. Tem espaço para plantar. A demanda depende da divulgação. A Bel é nossa porta-voz, porta-bandeira, nossa escola de samba inteira. Com a divulgação, a demanda cresce. A raiz cultural é do Brasil toda. A pesquisa que a gente fez mostra do Rio Grande do Sul ao Nordeste há histórias com o jaracatiá de tribos indígenas, colonizadores. Tem um almanaque que comprei de um colecionador do Rio de Janeiro que mostra que eles já plantavam a árvore no final do século 19.

FV – Qual a importância dessas conexões, com produtor, cozinheiro, público?

Bel – Esse evento é fundamental para este resgate e levar a informação para o grande público. Vira uma cadeia de comunicação, de conexão, fundamental pra cadeia real do alimento. É superimportante que os produtores e cozinheiros estejam sempre divulgando o produto nativo. Vender é bom, mas o mais importante do evento é essa conectividade. Cozinheiros, chefes, produtores e público. A curva é de crescimento. Estive presente no evento do Memorial da América Latina e temos mais público aqui.

Aprenda a fazer o doce de jaracatiá

“A receita do doce é simples: a fruta e açúcar”, conta Edu, e acrescenta: “ainda não tem a versão diet, mas a pessoa pode usar melado, açúcar de coco, com a proporção de 40% com 60% de polpa. Levantou fervura, fica mais ou menos uma hora no fogo e você pode saborizar com especiarias, cumaru, cravo, pimenta”   


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