Na 1º Experiência da Feira Viva foram servidas cervejas artesanais com frutas nativas, enquanto o público acompanhava os cozinheiros Ivan Ralston, Papoula Ribeiro e Helena Rizzo. Completaram a roda, ainda, o produtor rural Zé Ferreira, o botânico Ricardo Cardim e Marcelo Carneiro, presidente da Cervejaria Colorado.

Depois de ouvir Ricardo Cardim sobre a importância de recuperar a flora nativa nas cidades, recebemos Marcelo Carneiro, que comentou sobre seus experimentos na produção de cerveja artesanal com ingredientes nacionais:

“Eu queria falar sobre a forma como trabalho há vinte anos com cerveja, dez deles um pouco nessa onda, usando inspiração europeia. Um dia caiu um raio na minha cabeça e eu pensei: Poxa, por que eu estou fazendo isso? A gente está num país tão grande, tão culturalmente rico. Por que eu estou fazendo isso? Eu vou olhar em volta. Eu estou em Ribeirão Preto, eu vi cana-de-açúcar, mandioca, mel de laranjeira, e essas foram as minhas primeiras experiências com cervejas de ingredientes nacionais. Desde então, em todas as minhas cervejas eu coloco ingrediente regional”.

Marcelo continua

“Na segunda fase, eu resolvi entrar nos quintais. E aí veio essa linha de frutas de quintais, frutas esquecidas. Algumas mais ou menos nobres, como grumixama, uvaia e outras como açaí. Açaí é fruta, açaí. A gente está esquecendo não só a nossa biodiversidade, mas um termo que eu mesmo criei, a nossa biodeliciosidade. Muita fruta que a gente até provou, mas esqueceu. Outro dia eu provei um abiu. Que fruta deliciosa. Liguei para a minha mãe: Mãe, comi uma fruta deliciosa, tão bom que eu comi muito. E ela me respondeu: Nossa, quando era garoto você comia muito essa fruta”.

“Como é surpreendente! Ah, vou botar isso na cerveja”, pensou Marcelo, que conta mais sobre o seu processo:

“E tem toda essa onda das frutas que ajudam no sabor da cerveja, mas, além da polpa da fruta, nós estamos usando fermentados, no caso a mandioca, a rapadura, antigamente. E agora estamos fazendo cerveja com arroz negro, até com feijão preto a gente fez. E são surpreendentes! São coisas diferentes e a única razão pela qual nós não provamos antes é porque ninguém tentou. E a cerveja é boa! Ela está aí para ser provada”, convida Marcelo e finaliza com os desafios que tem pela frente.

“Queremos formar uma escola brasileira de produção de cerveja. O Brasil é o terceiro maior produtor de cerveja e não existe nenhum instituto brasileiro de cervejaria. Sim, existem competições, inclusive o Brasil ganhou muitas medalhas, mas em categorias estrangeiras. Eu até já ganhei medalhas estrangeiras com ingredientes nacionais. Mas está na hora da gente ter um estilo ou mais de cervejas com ingredientes nossos. Nós vamos fazer uma campanha, a Colorado está encabeçando, mas não liderando, porque é necessário mais de um para levar o Brasil para os países mais tradicionais como Alemanha, Bélgica, para nos fazer conhecer. Porque cerveja não é só água, malte, lúpulo e a levedura; a gente pode, inclusive, criar novas leveduras dos nossos biomas”, conclui.


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Cervejaria Colorado, Edição de Outono, Experiência 01, cervejas artesanais
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